Saída de Mertens abre cratera entre torcida e diretoria do Napoli

Não é de hoje que existe um clima desagradável na relação entre torcida-diretoria no Napoli. Afinal, vimos na duas últimas temporadas, inúmeros resultados decepcionantes, aumentos drásticos nos valores de ingressos e pouco investimento em reforços, afastando o time de conquistas e boas campanhas.

A saída de Lorenzo Insigne já tinha deixado fortes rusgas entre torcedores e presidente/dono do clube, Aurelio De Laurentiis. Mas no último final de semana, com a saída de Dries Mertens, sem renovação contratual, gerou uma revolta impressionante entre os tifosi napoletani. Não era por menos, pois o camisa 14, além de ser o maior artilheiro da história do Napoli, ainda por cima era o principal interessado em permanecer no time, com várias declarações de que ama a cidade e que não gostaria de sair do clube.

 

Breve história e números

Dries Mertens começou a carreira na Holanda, após atuar nas divisões de base de grandes clubes belgas como Anderlecht e Gent. Começou a ganhar destaque na Europa quando jogou no Utrecht, disputando duas temporadas, com 81 jogos e 20 gols, chamando a atenção do gigante PSV, que pagou 13 milhões de euros pela sua contratação.

Pelo PSV, foram dois anos intensos, atraindo o Napoli que comprou seu passe por incríveis 9,5 milhões de euros (valor baixo devido ao potencial que já mostrava no futebol holandês). Ao todo, Mertens entrou em campo em 88 jogos, anotando 45 tentos. Ou seja, Dries balançou as redes em 50% das partidas que fez pelo clube.

No Napoli foi espetacular! Em nove temporadas pelos Partenopei, disputou 397 duelos, marcando 148 vezes, tornando-se o maior artilheiro da história do clube. Além disso, distribuiu 90 assistências, chegando a um aproveitamento espetacular de 59% de participação ofensiva no time (gols+assistências). Na temporada 2016/17, graças aos 34 gols e 11 assistências em 46 partidas, ganhou vaga na seleção do Campeonato Italiano.

Em Nápoles, venceu duas Copas da Itália, em 2013/14 e 2019/20, além de uma Supercopa italiana em 2014, eternizando a camisa número 14.

 

Importância tática

Quando chegou ao clube na temporada 2013/14, Mertens conquistou rapidamente o torcedor devido a raça apresentada em campo e, obviamente, pelos gols. Com seus 1,69 cm, Dries apresentou muita velocidade e técnica, tendo como principal qualidade a facilidade de finalizar com as duas pernas (ambidestro), além de forte finalização de fora da área, tornando o belga um bom cobrador de faltas.

Atuando como centroavante, ponta ou recuado, seja como falso 9 e meia-atacante, transformou-se em um jogador importantíssimo para qualquer sistema tático dos treinadores que passaram por Nápoles, que foram os casos de Walter Mazzarri, Maurizio Sarri, Carlo Ancelotti, Gennaro Gattuso e Luciano Spalletti. A parceria com Insigne gerava dores de cabeça nos adversários, porque um complementava o outro, com Lorenzo fazendo ótimos lançamentos e Dries se movimentando com inteligência para se apresentar em condições de finalizar ao gol adversário.

Apesar de ter 35 anos, Ciro (como é carinhosamente chamado pelo torcedor) foi uma espécie de 12º jogador para Spalletti. Mesmo sendo reserva, foi importante durante toda a lesão de Victor Osimhen, mantendo a leveza no ataque partenopeo e marcando gols.

Em sua última temporada, em 2021/22, disputou 37 jogos, anotando 13 gols e realizando duas assistências, números melhores que muitos jogadores no futebol italiano e europeu, tanto que rumores apontam que Lazio, Fiorentina, PSV e entre outros clubes tenham interesse no jogador.

 

Relação com os torcedores

Se Insigne era o capitão e porta-voz do time com a torcida, Mertens era representante do povo napolitano em campo, com sua alegria em jogar futebol e amor ao clube, mostrando comprometimento e ambição.

Ciro viveu o que Nápoles tem de melhor. Seja com corridas na baía da cidade, comendo nos belíssimos restaurantes ou fazendo passeios de barco com sua esposa, Mertens se fez presente com a cidade e o povo, fazendo questão de atender cada torcedor que ficava esperando o belga na porta do CT.

Quando Diego Maradona nos deixou, em 2020, Dries fez questão de visitar o bairro Quartieri Spagnoli, local que conta com uma enorme pintura de D10S e um memorial a céu aberto do maior jogador que vestiu a maglia napolitana. Ao ultrapassar Marek Hamsik no topo da artilharia histórica do clube, fez questão de ir ao local para receber homenagem da torcida, sempre com simpatia e posando para fotos com os fãs. O carinho é tão grande da torcida, que o camisa 14 ganhou uma pintura no bairro, tendo inclusive assinado a obra.

 

Saída pela “porta dos fundos”?

É inegável que o casamento entre Mertens/Nápoles/Tifosi é eterno, mas infelizmente o contrato do belga não foi renovado. São muitos rumores. O clube diz que o atleta não aceitou reduzir o salário de 4,5 milhões de euros anuais. Enquanto isso, pessoas próximas ao jogador dizem que faltou diálogo para a assinatura de mais dois anos de contrato e remuneração adequada para ambas às partes. Esses dois anos, teoricamente, seriam os últimos da carreira de Ciro, que em várias oportunidades afirmou que gostaria de se aposentar no Napoli.

De Laurentiis, contudo, anunciou a saída do belga, que está livre no mercado. O que incomodou foram as simples homenagens que o clube fez em seu Twitter, apenas agradecendo o atleta. Não houve festa e muito menos placas de agradecimento para aquele que, de fato, é o maior jogador da squadra no século 21. A sensação é que Dries deixou a instituição pela porta dos fundos, como se fosse um simples jogador que vestiu a camisa do Napoli. Pesou demais o fato de a diretoria não ter procurado o belga na temporada passada, deixando as negociações somente para o final do contrato.

A saída de Mertens, alinhada com a de Insigne, dupla mais importante desde Maradona e Careca, trouxeram um mal-estar entre diretoria e torcida que ficou nítido com faixas de protesto em pontos da cidade e vaias na pré-temporada para De Laurentiis, que dia após dia sofre pressão para vender o clube a um futuro dono interessado em elevar o patamar do time, que vive uma seca de 32 anos sem um Scudetto.

Apesar do título da Copa da Itália, em 2019/20, ficou um sentimento de que em 2020/21 e 2021/22 faltaram peças complementares para o elenco, visto que o time terminou as últimas duas Serie A em quinto e terceiro, respectivamente, com o último sendo considerado por imprensa e torcedores como um campeonato totalmente palpável para o Napoli ser campeão.

O fato de não chegar a nenhuma final de Copa da Itália em dois anos, ter bons desempenhos em competições europeias, atreladas às fortes declarações do presidente, baixíssimos investimentos e, por fim, preços altos nos ingressos em jogos de Liga dos Campeões e clássicos nacionais, só afastaram o maior patrimônio do clube: o torcedor.

Obviamente que o Napoli não possui o mesmo poderio financeiro de Juventus, Inter e Milan, mas é inegável que com o elenco que tinha, somado a reforços pontuais, trariam força o suficiente para brigar por todas as competições nacionais e melhores desempenhos na copas continentais.

Não importa quantos jogadores cheguem na squadra partenopea, será difícil conter o incêndio que se instalou no Centro Sportivo Castel Volturno. Spalletti terá reforços pontuais para às saídas de David Ospina, Kalidou Koulibaly, Mertens, Insigne en talvezn de Piotr Zielinski (tem proposta do West Ham), mas precisará de tempo e paciência para fazer o novo time napolitano ser forte o suficiente para brigar por títulos.

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