Trocar de técnico é a solução para o Flamengo?

Esse texto não tem a pretensão de dizer o que é certo ou errado para o Flamengo. O intuito aqui é fazer a gente pensar, juntos, sobre o melhor a ser feito para que o Rubro-Negro retome o caminho do protagonismo, dos títulos. Os motivos são vários. Vamos a eles.

Antes de mais nada, façamos um recorte recente das ações do Flamengo no mercado de técnicos. Desde a saída de Jorge Jesus, técnico que colocou o Clube em outro patamar, nenhum treinador contratado foi capaz de “azeitar” o Flamengo novamente. Foram quatro tentativas, todas elas frustradas, em que pese as importantes conquistas de Rogério Ceni (o que extraiu o melhor futebol no Clube nesse período). De Domènec Torrent a Paulo Sousa, o torcedor rubro-negro segue órfão daquele futebol encantador de 2019, daquele time avassalador de Jorge Jesus.

Ninguém é maluco de diminuir o impacto de Jorge Jesus no Flamengo. É besteira tentar desmerecer sua importância na história do Clube e desdenhar de um eventual (e improvável) retorno do Velho, mas algumas coisas precisam ser ditas, debatidas, analisadas, para que não tenhamos a falsa impressão de que tudo foi graças ao JJ e que ele seria a “tábua de salvação” do Flamengo.

Verdade seja dita, já no início de 2020, ainda com Jorge Jesus, o Flamengo começava a dar sinais de queda de rendimento. Aquela máquina de jogador futebol que encantou as Américas começava a apresentar problemas. Como não tenho bola de cristal, jamais poderia cravar o que aconteceria em caso de permanência de Jorge Jesus à frente do Flamengo, mas o fato é que ele foi embora. Ele quis ir embora.

Depois disso, o Flamengo ainda presenteou seu torcedor com algumas conquistas, mas parece ter acordado daquele lindo sonho. A oscilação do futebol do Flamengo pode ser creditada, em parte, à saída de JJ, mas jamais pode ser condicionada a ela. Muita coisa aconteceu de lá para cá. Como explicar as constantes lesões dos atletas? Como explicar os processos de contratações dos técnicos? E a queda vertiginosa de rendimento de vários jogadores? E a montagem dos elencos? São muitas as perguntas e talvez essas respostas nos ajudem a construir os verdadeiros motivos de o Flamengo ter parado no tempo. Ou pelo menos de ter visto alguns rivais assumindo a dianteira do protagonismo nacional.

Não sou defensor do Paulo Sousa. Defendo o processo, o tempo, o trabalho. Depois de quatro meses à frente do Flamengo, é inegável que o trabalho do novo Mister está abaixo do esperado, do mínimo aceitável, sobretudo pelo bom time que o Flamengo ainda tem. Apesar de um começo conturbado, com a perda de dois títulos, confesso que vislumbrei um bom futebol num curto espaço de tempo, tomando como base algumas boas (mas poucas) partidas do time. Só que o tempo foi passando e o futebol apresentado segue pobre. O Flamengo de Paulo Sousa é uma equipe muito irregular, frágil defensivamente e que ainda não deu liga.

Pode evoluir? Claro que sim, mas até agora é um time espaçado, com erros de mecanismos e dependente de talento individual. Não há um jogo em que não sofra na transição defensiva e ofereça muitas chances aos adversários. Ainda que tentem defender o treinador português, até com bons argumentos sobre tempo de trabalho e falta de peças solicitadas para o plantel, sem falar nas lesões, não se pode fingir que está tudo bem. Não está. E o sinal de alerta tem que estar ligado, sim. Ele tem que ser cobrado.

Então quer dizer que o autor desse texto quer a cabeça do Paulo Sousa? Não, longe disso. O tempo e os processos mostraram que trocar de técnico não vai resolver os problemas do Clube. Apenas empurrariam os mesmos para o próximo comandante. Agora, isso não isenta o Departamento de Futebol de fazer melhores escolhas, de entender a fundo qual o perfil do Clube e do elenco na hora de contratar um profissional. Também é importante ter uma melhor relação entre o Departamento Médico e a preparação física, a fim de mitigar o famigerado problema das lesões. O Flamengo precisa de processos. Precisa de excelência em todas as áreas. Quando uma coisa não caminha junto da outra, a tendência é não dar resultado. A busca incessante por um culpado muitas vezes aponta o canhão para o alvo errado.

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