Flamengo: mais vontade e menos vaidade

Depois de um ano de 2021 frustrante, a expectativa na Gávea era de uma nova temporada, com a retomada dos títulos, do protagonismo, mas a realidade que bateu à porta do Flamengo foi bem diferente: mais vice-campeonatos e o caldo rubro-negro entornado.

São várias as matérias de jornalistas sérios escancarando a crise rubro-negra. Problemas de relacionamento, atritos com a nova comissão técnica, briga interna, time sem padrão e até rixa por conta de braçadeira de capitão. Um desavisado até poderia confundir com uma briga de colegial, mas a bulha, pasmem, é entre marmanjos do Flamengo. Uma fogueira de vaidades que prejudica o Clube.

Definitivamente, para mim, trocar o técnico (mais uma vez) está longe de ser a tábua de salvação do Flamengo. Seria apenas mais uma medida precipitada e com foco desviado. E isso não tem nada a ver com defender Paulo Sousa. É sobre não compactuar com sabotagem e acreditar em um novo projeto.

Paulo Sousa está isento de culpa? Longe disso. Falta comando, atitude e, sobretudo, capacidade para enxergar e escolher as melhores peças para trazer para seu lado. Como líder, o treinador português também precisa ter mais sensibilidade para tocar o processo de reformulação que caiu em seu colo. Ele não escolheu esse fardo, mas se não tiver habilidade será engolido pelo sistema.

Você, torcedor do Flamengo, está disposto a pagar o preço dessa reformulação? Dificilmente a torcida vai entender ou aceitar os percalços desse processo, mas me parece um caminho sem volta. E necessário. Demitir Paulo Sousa com a justificativa de que o treinador perdeu o vestiário e é limitado cai no erro recorrente da terceirização de responsabilidade. Trocar – mais uma vez – o técnico é dar salvo-conduto para esse grupo de jogadores. Me parece a pior opção possível para este momento, ainda que o cenário não seja dos mais favoráveis.

E qual a única forma de amenizar o péssimo clima no Flamengo? Vencendo jogos, obviamente. A começar pelo de hoje, contra o Sporting Cristal, na estreia da Libertadores 2022 (se tiver jogo, é claro). Mas como fazer isso sem união e padrão tático? Não há receita infalível, mas passou da hora de deixar de lado os interesses pessoais e colocar a instituição em primeiro lugar. O recado precisa ser firme. O Flamengo é maior que todos. E quem não estiver no mesmo barco que pegue seu colete salva-vidas e pule.

Também me parece óbvia a necessidade dos jogadores se sentirem pressionados, fora da zona de conforto, sem o apoio incondicional dos torcedores. E a Diretoria também precisa sentir que a torcida está do lado de Paulo Sousa e dar respaldo ao treinador. Um apoio preponderante para que o processo de transição tenha futuro. O Departamento de Futebol precisa ser firme, sem paternalismo. Sem espaço para jogador mimado e acomodado.

O Flamengo precisa ser reiniciado. Começar do zero. Novas lideranças, novos protagonistas, mais vontade e menos vaidade. Time nenhum no mundo funciona sem sintonia no objetivo final: o Clube em primeiro lugar. E quem não estiver satisfeito que peça para sair.

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