Homens trabalhando

Na edição da semana posterior à classificação da seleção masculina da Holanda para a Copa de 2022, a revista Voetbal International estampou na capa: “Missão cumprida: agora, é construir um bom time”. E a construção rumo ao Mundial começará exatamente nesta semana. Podem não ser amistosos contra seleções fora da Europa – o técnico Louis van Gaal os queria tanto quanto a Seleção Brasileira gostaria de pegar adversários do Velho Continente, por exemplo -, mas a Laranja terá rivais respeitáveis à disposição nas suas primeiras partidas do ano. No próximo sábado, às 16h45 de Brasília, em Amsterdã, a Dinamarca – até melhor do que os neerlandeses nas eliminatórias da Copa, classificada de modo invicto; e na terça-feira, 29, novamente na Johan Cruyff Arena, a Alemanha, antagonista tão histórica.

Se o próprio Van Gaal reconheceu que “a preparação para a Copa começa nesta semana”, o início da “construção” quase teve a dificuldade de ficar sem o “mestre-de-obras”: afinal de contas, Van Gaal testou positivo para o coronavírus na terça passada, e teve de ficar alguns dias em isolamento. De todo modo, o treinador da Oranje chegou para a semana de treinamentos no centro da federação, em Zeist, enfatizando várias coisas. A primeira delas: uma grande convocação – são 28 os chamados. Algo explicável pelo técnico, na coletiva de apresentação, na segunda-feira passada: “Quero que todo mundo participe da implementação [do esquema]. Aí posso ver quais jogadores funcionam ou não. Também ficará fácil ter mais jogadores, para termos uma noção de como posso utilizá-los”. Isso inclui até gente lesionada: o zagueiro Jurriën Timber e o atacante Cody Gakpo, por exemplo, estavam lesionados e já até voltaram a seus clubes, mas foram mantidos na convocação por alguns dias. Afinal, Van Gaal não quer perder tempo algum: “Eles podem não treinar, mas podem assistir e ouvir”. E quer dar chance aos jovens: “Espero que eles se desenvolvam neste ano, para que possamos usá-los, eventualmente. Foi o que aconteceu em 2014, com Depay [Depay foi àquela Copa aos 20 anos, e jogou bem]”.

Novidades Também fazem parte desse amplo grupo de jogadores. Seria o caso do zagueiro Jordan Teze, do PSV, estreando pela seleção adulta na lacuna aberta com a contusão de Stefan de Vrij – mas Teze foi cortado após lesão durante os treinos. É o caso de Jordy Clasie: cinco anos após sua última convocação, a experiência e as boas atuações do meio-campo do AZ, presente na Copa de 2014 – jogou a semifinal contra a Argentina, desde o intervalo do tempo normal -, renderam a volta à Laranja, para surpresa dele mesmo (“Nem falei com o técnico ainda, eu o reverei pela primeira vez”).

Não será o caso de Ryan Gravenberch: mesmo elogiado pelas atuações recentes no Ajax, o promissor meio-campista ficou de fora da convocação, indo para a relação da seleção sub-21. Van Gaal justificou: “Ele teve uma fase ruim (…) E a Laranja Jovem joga contra a Suíça, que está na frente [nas eliminatórias da Euro sub-21]. Estou aqui em nome do futebol holandês, não só da seleção principal”. Gravenberch sentiu o impacto. Reconheceu a má surpresa, na ligação em que Van Gaal lhe comunicou. E sintetizou, ao diário Algemeen Dagblad: “Eu realmente não esperava [ficar fora da seleção principal]”.

Outro ponto bastante enfatizado pelo comandante da Laranja: o esquema tático. Enfim, cumprido o primeiro objetivo – a vaga na Copa -, Van Gaal ganhou algum crédito para fazer o que deseja desde o começo de sua terceira passagem pela seleção: além do 4-3-3 velho de guerra, experimentar escalar a equipe com três zagueiros. Muito inspirado pelo Chelsea (“Você pode ser ofensivo no 5-3-2, ou no 5-2-3 – o Chelsea mostra isso, com escalações diferentes, eu tiro o chapéu para Tuchel”), Van Gaal pensa seriamente num 3-4-3. Ou num 3-5-2 – e até por isso, fica justificável a convocação de Hans Hateboer, mais do que acostumado a jogar assim na Atalanta, como um ala avançado pela direita. O técnico repetiu justificativas: “Há muitos times que jogam assim, ou numa variação desse esquema. Os jogadores já estão mais envolvidos com isso”. Louis foi além: “Há muitos times na Holanda que jogam assim, e dificultam as coisas contra times maiores”. E terminou: “Também se deve olhar para as qualidades do adversário. A marcação por pressão não precisa ser somente na área do adversário. (…) Contra a Noruega [nas eliminatórias da Copa], a gente marcou por pressão no meio-campo. Deixamos a Noruega vir, e tínhamos espaço para os contra-ataques”.

As polêmicas começam agora. Aqui e ali, retornam as principais críticas à escalação com três zagueiros: ser algo que “trai” a “escola holandesa”, adepta do bom e velho 4-3-3. Ouvido pela Voetbal International, o ex-técnico e comentarista Hans Kraay Jr. resumiu: “Se está tudo bem com o 4-3-3 e os jogadores se sentem bem assim, para quê mudar tudo de novo?”. Tal comentário foi ecoado por ninguém menos do que Virgil van Dijk: embora receba bem a tentativa de mudar o esquema (“Temos uma seleção fantástica, com bons jogadores, que seguramente poderiam atuar assim”), o zagueiro e capitão também reconhece: “Ainda acho que o 4-3-3 também funciona bem para nós”. E Van Gaal deixa a porta aberta para a volta do esquema tático mais habitual da Holanda, se necessário: “Todo dia eu deixo um tempo livre para avaliação nos treinos, e eles [jogadores] também podem falar. Eu escolhi esse sistema, é o que um técnico faz, podem achar que eu sou um ditador… mas se um jogador não quiser isso, ele também jogará pior. Isso não é bom. Todo mundo precisa estar bem para podermos alcançar algo”.

Mas há pelo menos um nome alegre com a experimentação tática a ser feita: Mark Flekken. Enfim, o goleiro de 28 anos terá sua estreia jogando na seleção masculina, com as lesões do titular Justin Bijlow e do veterano Jasper Cillessen, primeiro reserva. Van Gaal justificou – sem citar nomes – a escalação com o… esquema: “Ele joga muito bem numa defesa com três zagueiros. Se ele será o titular contra a Dinamarca? Não sei, mas ele joga bem com três zagueiros”. A Flekken, ainda um mistério para a maioria da torcida (o perfil da emissora NOS no Instagram revelou que 85% dos seguidores nunca viu o goleiro atuar no Freiburg-ALE), ficou a comemoração otimista: “É um sonho de menino, e sonhar não custa nada”. Elogiado pela capacidade em ter a bola nos pés, além das defesas, o arqueiro ainda assumiu, quando perguntado se dera um leve sorriso com a chance que se abriu, pelas ausências dos nomes mais habituais da posição: “Eu mentiria se dissesse que não…”.

Há mais fatores chamando a atenção. A promessa de Teun Koopmeiners, aumentando sua voz (“Eu jogo assim, com três zagueiros, na Atalanta. E eu vou brigar pela posição em que Frenkie de Jong joga, é para isso que estou aqui”). As dúvidas sobre o nível técnico atual de Georginio Wijnaldum e Memphis Depay, ambos em relativa má fase nos clubes por que jogam. Todos elementos que serão levados em consideração. Porque, a partir de agora, a seleção da Holanda está igual a um prédio em obras. Bem poderia ter aquela placa amarela, típica de construções, com os dizeres “homens trabalhando”. Tudo para que o “edifício” laranja esteja firme e possa causar uma boa impressão quando a Copa chegar.

Os convocados da Holanda

GOLEIROS: Mark Flekken (Freiburg-ALE), Tim Krul (Norwich City-ING) e Joël Drommel (PSV)

LATERAIS: Denzel Dumfries (Internazionale-ITA), Hans Hateboer (Atalanta-ITA), Daley Blind (Ajax), Tyrell Malacia (Feyenoord) e Owen Wijndal (AZ)

ZAGUEIROS: Virgil van Dijk (Liverpool-ING), Matthijs de Ligt (Juventus-ITA) e Nathan Aké (Manchester City-ING)

MEIO-CAMPISTAS: Georginio Wijnaldum (Paris Saint Germain-FRA), Frenkie de Jong (Barcelona-ESP), Marten de Roon (Atalanta-ITA), Steven Berghuis (Ajax), Jordy Clasie (AZ), Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA), Guus Til (Feyenoord) e Davy Klaassen (Ajax)

ATACANTES: Memphis Depay (Barcelona-ESP), Steven Bergwijn (Tottenham-ING), Donyell Malen (Borussia Dortmund-ALE), Arnaut Danjuma (Villarreal-ING), Noa Lang (Club Brugge-BEL) e Wout Weghorst (Burnley-ING)

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