Xavi, o provável arquiteto da retomada do Barça

Nos últimos dois, ou até três, anos, o torcedor culé não teve uma boa notícia sequer. Sem dúvidas, o Barcelona vem atravessando a pior fase da sua história. É impossível relembrar algum outro momento no qual a situação blaugrana esteve mais crítica do que a atual. A gestão de futebol de Bartomeu provocou estragos inimagináveis: investimentos altos em nomes que deram pouquíssimo retorno – como Coutinho e Dembele -, aumentos vertiginosos na dívida e na folha salarial, perdas importantes – inclusive do maior jogador da história do clube – sem reposição à altura e carência de manutenção básica nas instalações de futebol. Crise geral, acentuada pela chegada da pandemia, que acabou com a arrecadação vinda do Camp Nou, e pela péssima passagem de Ronald Koeman

O ex-zagueiro holandês chegou em um momento caótico para apagar o incêndio que estava se alastrando por todas as partes da instituição. O trabalho teve um saldo negativo. Obviamente, as boas opções de elenco foram desaparecendo ao longo do seu período no clube. No entanto, Koeman não soube usar de forma adequada as excelentes promessas de La Masia, pecou na definição de um estilo de jogo e, sobretudo, demonstrou ser um ponto fora da curva da filosofia catalã da última década. Em 2006, a gestão Laporta, decidida a revolucionar o departamento de futebol, buscou um novo treinador, com base em 9 critérios, e ficou entre Guardiola e Mourinho. Como todos sabem, o escolhido foi o primeiro, e, desde então, o jogo de posição foi reavivado e se tornou uma marca, quase uma religião, do Barcelona. O último técnico foi o único, a partir do início dessa era, não adepto dessa filosofia. 

Em contramão a todas essas trevas, uma boa notícia! Xavi é a esperança de dias melhores. Como eu disse, havia tempo que alguma boa nova não aparecia nos ares catalães. Contudo, o ídolo espanhol é forte candidato a conduzir o time rumo a um caminho melhor. A retomada do jogo de posição, o conhecimento profundo da instituição e das categorias de base e a confiança do torcedor são fatores que nos permitem enxergar melhores horizontes. Xavi ainda possui pouca experiência à beira do campo. Recentemente, completou 100 jogos pelo Al-Sadd e, apesar do curto tempo, apresentou ideias interessantes e facilmente adaptáveis às opções disponíveis do Barça atual

Durante o período na Arábia Saudita, o espanhol alternou entre o 433 e o 343. Em ambos os casos, havia saída de bola sustentada com três homens, meio campo bem povoado e duas peças em amplitude, uma em cada lado. Em consonância com os principais preceitos do jogo de posição, os jogadores de defesa e meio, sobretudo na primeira fase de construção, manipulavam a bola de forma rápida e, ao mesmo tempo, paciente. No momento em que algum buraco na defesa adversária era observado, os jogadores de ponta, normalmente rápidos e habilidosos, eram acionados. Nesse momento, a liberdade de escolha e de posição era maior. Os atacantes e meia ofensivos podiam acionar o centroavante centralizado, formar triângulos nas pontas, partir para o “mano a mano” e, em situações bem específicas, arriscar de fora. Em linhas gerais, o momento ofensivo era marcado por alta posse de bola, construção detalhada, valorização da troca de passes, poucas perdas de chances e movimentos coordenados em todas as fases. É possível aplicar tais preceitos no atual plantel do time catalão? Sim!

Hoje, o setor mais qualificado do Barça é o meio campo. O elenco conta com a mescla entre peças da base, contratações recentes e medalhões. No estilo de jogo que deve ser implementado, essa área é fundamental, uma vez que os jogadores que ali atuam retém a bola durante a maior parte do tempo para criar as chances de perigo, ditam o ritmo com alternância entre momentos de acelerar e diminuir a circulação da bola e protegem, por intermédio da compactação com a linha de zaga, a própria área. Assim, Xavi poderá contar com Sergio Busquets, que pode ser considerado o maior “organizador” da última década, De Jong e Pedri na parte mais atrás do setor de meio. Os três, com a excelência de achar espaços para passes frontais, sair de situações de marcação alta e controlar a velocidade das ações, serão de suma importância no setor criativo. Além deles, Riqui Puig, que teve poucas chances na gestão Koeman, deve ser utilizado na zona de meio espaço – entre o corredor central e o corredor lateral – para compor as triangulações ofensivas e fazer a transição entre a primeira e a terceira fase do jogo.

Mais próximo ao gol, a qualidade não é a mesma e o novo treineiro terá que ser criativo para gerar situações inusitadas de ataque. Os extremos, como já foi introduzido, atuam bem próximos à linha lateral. Para essa função, os nomes disponíveis são o Ansu Fati, que, infelizmente, vem sendo acometido por inúmeras lesões, o Dembele, que ainda não rendeu o esperado mas tem potencial para tal, e o Demir, que vem demonstrando potencial para se firmar no time de cima. Apesar da pouca regularidade desses nomes, todos são rápidos, bons no “mano a mano” e cumprem funções defensivas. Podem ser úteis com a dose certa de confiança e correção tática. Ainda nessa faixa, é possível citar os três laterais, Alba, Dest e Dani Alves, que apresentam boa chegada à frente, alta capacidade de cruzamento e podem ser utilizados como alas em um esquema com três zagueiros. Como atacante central, o grande, e talvez único, nome é Depay. Ele possivelmente será utilizado de maneira bem móvel, com alternância entre o pivô fixo e as chegadas pelas beiradas, com o objetivo de abrir espaços para quem vem de trás. E, na posição de meia atacante, o jovem Gavi será bem favorecido com o novo comando, pela experiência de Xavi nesse tipo de riscado e pela característica peculiar no elenco de conduzir a bola com agilidade e dribles curtos. Aposto na sua sequência e crescimento nos próximos meses. 

Em última análise, a cozinha, que tem sido motivo de preocupação dos torcedores culés nas últimas temporadas. Para uma melhor organização e segurança desse setor, há duas possibilidades de montagem para Xavi. Uma é com três defensores, o que possibilita a formação da linha de 5. A vantagem desse esquema é o equilíbrio proporcionado pelos homens das pontas, que negam espaços na defesa e chegam com força ao ataque. A outra configuração é com a clássica linha de quatro, que obriga a utilização mais defensiva dos laterais. Em ambos os casos, a equipe deve priorizar a marcação em bloco médio e fazer a compactação com os homens de meio, para fechar as entrelinhas. Como quase todos os nomes desse setor não são velozes e apresentaram falta de confiança repetidas vezes, é preferível optar por organizações mais conservadoras no início, e, com a evolução do trabalho, testar variações, como uma pressão pós-perda intensa e linhas de marcação mais altas. 

Enfim, da mesma forma que tudo ocorre no futebol, não dá para cravar com veemência o sucesso do projeto. No entanto, em meio à bagunça generalizada que a instituição vive, o nome do Xavi é uma boa alternativa para catar os cacos e, aos poucos, voltar a ter um prédio estruturado. Cabe a todos que fazem parte do clube – torcida, diretoria e jogadores – entenderem que o buraco é fundo e a reconstrução vai ser demorada. Provavelmente, os resultados não virão no primeiro mês de Xavi. É necessário ter paciência para observar os frutos que surgirão em diferentes faces do jogo.

Standings provided by SofaScore LiveScore

SHARE