Os primeiros meses de Ancelotti à frente do Real Madrid tiveram mais acertos que erros

A temporada europeia 21/22 está completando dois meses. Algumas equipes tiveram poucas mudanças, apenas com mudanças de alguns nomes. Esse não foi o caso do Real Madrid. O clube espanhol trocou Zinedine Zidane, que já vinha se desgastando no comando técnico, por outro velho conhecido, o vitorioso Carlo Ancelotti. Em um contexto de ascensão de técnicos novos, como Nagelsmann no Bayern e Tuchel no Chelsea, houve muita desconfiança acerca da capacidade do ex-treinador do Everton. Os mais radicais e menos educados disseram até que ele estava velho e ultrapassado e que não adiantaria ‘querer reviver o passado’. Ledo engano. Os inícios de campeonatos nos revelam um panorama bem distinto.

Na última edição da La Liga, o Real Madrid ficou em segundo lugar, atrás do seu principal rival da capital espanhola, e, na última Champions League, foi eliminado na semifinal, contra o Chelsea, que se sagrou campeão da edição. Para uma equipe dessa magnitude, passar uma temporada em branco é um fracasso. No decorrer do trabalho, começaram a surgir indícios de que seria necessário uma pessoa à beira do campo mais hábil em gerir um elenco e dar início à transição entre caras carimbadas dos últimos canecos e os novos jovens. Por exemplo, na partida da eliminação para a equipe londrina, Zizou modificou a função de todas as peças do meio e deslocou Vinícius Jr. para a ponta direita com o único objetivo de encaixar Eden Hazard, que vinha de um bom tempo parado por lesão, no time titular. A equipe perdeu as principais movimentações ofensivas e rendeu bem abaixo do esperado. Além desse, houve também vários outros episódios que explicitaram a carência de uma melhor utilização das peças e de aplicação de variações táticas.

Aos poucos, o time merengue está adquirindo uma cara menos pragmática e mais alegre. Até agora, a mudança mais gritante foi a evolução do Vinícius Jr., e a chave disso está na palavra liberdade. Com o antigo treinador, o jovem atacante atuava apenas pela faixa esquerda, na intenção de “alargar” o campo e criar espaços por meio da atração de defensores adversários. Além disso, ele frequentemente recuava para fazer a marcação dos jogadores de lado do outro time e, por vezes, compunha uma linha de cinco na marcação, juntamente com os dois laterais e os dois zagueiros. 

Atualmente, vida nova! O Vini está atuando em três funções diferentes durante o jogo. Quando os onze jogadores do Real ocupam a área de ataque, ele se torna um segundo atacante, ao lado de Benzema e de frente para o gol. Quando a equipe está em bloco baixo, pronta para fazer uma transição rápida, ele atua como extremo esquerdo, para gerar variações de contra-ataque. E, ainda, em algumas raras vezes, ocorre a inversão de posicionamento com o Benzema. Com isso, o brasileiro faz a função de um falso nove, de forma semelhante à que Guardiola utiliza Phil Foden, e o francês abre pela ponta. A partir dessas alterações, o Vini evoluiu suas capacidades de finalização, tomada de decisão, posicionamento e domínio orientado. Os números em relação à última temporada são alarmantes.

As mudanças na defesa também são positivas. Na opinião deste que vos fala, a zaga seria o setor mais problemático do Real Madrid na atual temporada, afinal nosso subconsciente nos diz que nenhum time que perde dois defensores ídolos e multicampeões passa impune. Porém, para surpresa minha e de muitos, Militão e Alaba estão suprindo a ausência de Sergio Ramos e Varane. Obviamente, não de forma idêntica, mas com outras virtudes. Os novatos do time titular são muito velozes, assim como os laterais – Mendy e Carvajal ou Vasquez – e o Casemiro. Isso permite que as linhas de marcação sejam altas, o “perde-pressiona” é executado com eficiência e a equipe retoma a posse em um zona do campo próxima ao gol adversário. Além disso, a qualidade da saída de bola foi elevada, em função das características do Alaba. Nesse momento, algum homem da trinca de meio campo, normalmente Kroos ou Modric, recua para se associar ao zagueiro austríaco, e a construção de jogo nasce, ora com algum lateral na zona de meio espaço, ora com algum extremo em amplitude, ora com outro médio centralizado. 

Em termos de meio campo, a estrutura é a mesma na capital espanhola há algum tempo. O tripé Casemiro-Modric-Kroos, apesar de ter sido acrescido do Valverde durante alguns momentos da temporada passada, é hegemônico, de forma que os dois médios não-brasileiros alternam entre a primeira fase de construção, para fazer a saída de bola, e as triangulações próximas aos extremos e laterais. O que há de novo é o alinhamento dos laterais com os homens de meio e a utilização do Casemiro bem avançado, durante momentos específicos. Mendy e Carvajal se colocam mais ao meio, entre o centro e corredor lateral, perfilados com o primeiro volante, enquanto os dois extremos alargam o campo. Assim, o time se organiza com muita densidade na zona central e respeita o desenho tático, seguindo preceitos do ataque posicional, e o volante brasileiro encontra a liberdade de se aproximar do ataque, com o objetivo de explorar sua qualidade de infiltração e finalização. Cabe destacar, ainda, o jovem francês Camavinga, que, em seus primeiros jogos, já demonstrou uma capacidade de organização apurada, com toques rápidos e visão ampla do campo. A partir de uma boa prospecção, a qual Carlo Ancelotti é perfeitamente capaz de realizar, ele pode ser o sucessor de Luka Modric

Por último, e nem um pouco menos importante, o ataque. Vinícius e Benzema são soberanos. Podem até ser considerados a melhor dupla de ataque europeia até agora. A vaga pela direita está passando por várias mãos. Rodrygo estava ganhando sequência até sua lesão na partida contra o Elche. Agora, os mais frequentes por ali são Asensio e Vasquez. O flanco esquerdo é o mais volumoso e por onde saem as principais ações ofensivas, por meio das participações de Kroos, Mendy, Vinícius e Alaba. Benzema é um centroavante que passa a maior parte do tempo centralizado, mas se movimenta pelos dois lados com o intuito de encontrar espaços. Seus poderes de finalização e passe estão cada vez mais apurados. Aos poucos, estão aparecendo algumas características de “playmaker”, um homem capaz de executar funções de um ataque todo. O lado direito é mais protocolar. O atacante que atua por ali, normalmente, possui a obrigação de compor a linha de 5 com os defensores, deve ter mais atenção à parte defensiva e é mais atuante na finalização do que na elaboração das jogadas.

 

Enfim, o início de trabalho é promissor, sobretudo em função do grande repertório de jogadas que vem sendo apresentado, e do encaixe das novas peças, que fazem uma boa mescla com os “medalhões” e estão sendo preparadas para compor a estrutura de uma nova era de títulos no maior clube do mundo. Nisso, há méritos óbvios de Carlo Ancelotti, que, assim como ocorreu várias vezes ao longo de sua extensa carreira, demonstrou capacidade de adaptação ao contexto e ideias inovadoras, e de Florentino Perez, que faz grandes esforços para manter alguns jovens na equipe, mesmo em meio a assédios externos. São essas atitudes que revelam habilidades administrativas e engrandecem ainda mais a instituição.

Standings provided by SofaScore LiveScore

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