Bundesliga questiona novo Fair Play Financeiro da UEFA

Desde o início da pandemia o tema do Fair Play Financeiro na Europa começou a ser repensado. Após 10 anos de bons resultados, o sistema ficou ultrapassado. Modelos de controle precisam ser vivos e se adaptarem à realidade, e não a realidade se adaptar a eles.

Com os enormes prejuízos que a pandemia trouxe, especialmente associados à falta de público e redução nos valores pagos pelos direitos de transmissão, era natural que houvesse flexibilização momentânea das regras. Sistemas que se adaptam à realidade. Flexibilização essa que permitiu prejuízos e aportes de acionistas, bem como aumento de dívidas.

O problema é que esta flexibilização se transformou numa grande confusão, que vai da reformulação do sistema controlado pela UEFA, passando pela suspensão do sistema francês, que permitiu ao PSG a contratação de Messi e a formação de um elenco ainda mais forte, e chegando ao retorno da rigidez do modelo espanhol da LaLiga, que justamente inviabilizou a permanência de Messi no Barcelona em nome do equilíbrio financeiro.

Relembrando rapidamente o tema, os campeonatos nacionais na Europa possuem seus sistemas de Fair Play Financeiro, dos modelos mais complexos e controladores, como o holandês, aos mais simples como o italiano, francês, alemão e inglês, passando pelo sistema espanhol em que os controles são prévios, ou seja, tentam evitar o problema e impedem contratações e renovações salariais. Como são diferentes, a UEFA resolveu criar um modelo único em 2008/2009 e passou a controlar os clubes que disputam as ligas continentais a partir de um modelo simples, mas que na época foi eficiente.

No pós-pandemia a UEFA resolveu ousar. Se o modelo anterior era baseado no conceito de “gastar o que se arrecada”, agora a ideia é “gastar o que pode”. Parece a mesma coisa, mas não é.

No modelo anterior os clubes apresentavam os resultados financeiros e deveriam apresentar equilíbrio, ou seja, receitas iguais ou maiores que as despesas. Havia alguns controles de investimentos e dívidas, mas em geral a ideia era simples. Ainda que discorde da forma de cálculo – utilizam as amortizações como custos correntes e as dívidas possuem uma folga muito grande – o sistema seguiu operando. Perdeu oportunidades de ser relevante ao deixar passar casos como PSG e Manchester City, e foi sendoludibriado a partir de operações de troca de atletas que geravam lucros, ou empréstimos como direito de compra futuro.

Sem contar que um dos argumentos para que o modelo fosse simples era o de que precisa ser fácil explicar ao torcedor. Porém, o torcedor tem enorme dificuldade em entender os critérios e porque alguns clubes nunca foram sancionados, mesmo com prejuízos e aportes infinitos de dinheiro. É melhor ser complexo e eficiente que simples e deixar o torcedor na dúvida sobre a aplicação.

Agora a UEFA decide que deixará o modelo anterior para trás e opta por adotar medidas elitistas. A ideia de “gastar o que pode” tem por trás o conceito de todo clube terá um limite de gastos salariais70% das receitas referente ao conjunto de 25 atletas que compõem o elenco inscrito nas competições continentais – mas quem quiser gastar mais está liberado, desde que pague uma multa, o chamado “luxury tax”. O dinheiro dessa multa seria dividido entre os demais clubes da estrutura do futebol.

Além disso, acaba a regra de controle de prejuízo, ou seja, pode gastar à vontade desde que pague as multas. No fim das contas, acabou o controle, pelo menos para os clubes ricos e que tem bolso fundo.

Não é à toa que a primeira crítica ao modelo vem da Bundesliga. Os clubes da liga alemã, majoritariamente controlados por associações sem fins lucrativos e, portanto, com pouco espaço para aportar recursos e cobrir eventuais desequilíbrios, estão esbravejando. Numa matéria do site Sport Bild foi apontado que há 3 reclamações em relação às novas regras:

1. São conta o fim da regra de equilíbrio financeiro, pois isto tende a deixar o futebol caro e desequilibrado;
2. São contra o limite de gastos salariais de 70% apenas para os 25 atletas inscritos na competição continental. Eles querem que seja aplicado para todo a estrutura, pois há risco dos clubes ricos gastarem muito em atletas que são usados apenas nas competições nacionais;
3. São contra a Luxury Tax, pois ela beneficia apenas quem tem dinheiro, o que não é o caso dos clubes alemães;

É tão óbvio que soa estranho. Está claro que o modelo ataca diretamente clubes alemães e associações como Barcelona e Real Madrid, beneficiando clubes que gastam sem lastro. O mais curioso para quem faz uma associação rápida com a questão da Superliga de clubes é que os alemães foram os primeiros a se oporem à liga, enquanto a Juventus poderia ser uma das beneficiadas pela mudança nas regras. Ou seja, ainda que haja benefício claro para PSG e clubes ingleses – que rapidamente deixaram a aventura da Superliga, mas apenas porque foram pressionados pelo governo de Boris Johnson – não parece haver relação direta com a rebelião comandada pelos espanhóis.

O problema segue sendo a discrepância de modelos nacionais de controle, com alguns rígidos e outros frágeis, reforçado por uma ideia sem-pé-nem-cabeça da UEFA, que coloca por terra os anos de ajustes feitos com esforço, mas sucesso. Sem um modelo externo mais técnico e menos político, o futebol europeu se coloca em risco. E este risco se estende ao resto do ecossistema, que depende do dinheiro deles para se manter operando.

É possível que a divulgação que ocorreria há duas semanas tenha sido postergada por conta da rebelião alemã. Apesar da nova ECA – Associação Europeia de Clubes, que é comandada pelo dono do PSG – ser favorável, há um risco da ideia voltar para a prancheta. Para o bem do futebol.

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