Futebol europeu segue uma vitrine repleta de oportunidades

A Euro 2020 chega à sua fase final, o que significa que o mundo dos clubes volta se movimentar. E na Europa esse mundo significa movimentação relevante de dinheiro. Pandemia pra cá, pandemia pra lá, mas o show tem que continuar, e isso significa oportunidade de negócios. Nesta coluna falaremos um pouco sobre diversos movimentos no futebol europeu, e que infelizmente não são vistos no Brasil.

JUVENTUS: AUMENTO DE CAPITAL

Na temporada 2020/21 o clube italiano apresentou prejuízo de € 114 milhões, fruto de uma combinação de efeitos da pandemia com desempenho esportivo abaixo dos anos anteriores. Ser eliminado nas 8ªs de final da Champions League e acabar a Serie A em 4º colocado contribuíram para redução de pelo menos € 30 milhões nas receitas do clube.

Mas um clube com dono e de capital aberto tem sempre alternativas para se recompor financeiramente. Entre a possibilidade de tomar empréstimos ou fazer um aumento de capital, a Exor Holding, que é a acionista majoritária do clube optou por fazer uma nova rodada de aumento de capital. Será a 2ª rodada em 3 anos, pois no final de 2019 o clube recebeu € 300 milhões, que seriam utilizados para investimentos e redução de dívidas, mas que foram engolidos pela pandemia.

O novo aumento de capital deve ser entre € 300 milhões e € 400 milhões, e será coordenado por bancos italianos e americanos. Mas, diferente do anterior, a Exor não está disposta a colocar todo o valor que lhe cabe. Hoje a holding que participa em negócios como a Stellantis (Fiat+Chrysler+Peugeot) e o jornal La Repubblica decidiu que aportará valor inferior à sua participação acionária na Juventus (63,8%), de forma que aceita ser diluída por novos sócios. Não está claro quanto ela está disposta a aportar, mas apenas que ela tem intenção de permanecer majoritária.

Este movimento é importante por alguns motivos: i) os atuais acionistas parecem ter um limite de dinheiro a ser aportado num negócio que não gera retorno e tem dado constantes prejuíxos; ii) está querendo aproveitar o elevado interesse de fundos de investimentos e private equity americanos pelo futebol, de forma a trazer alguém para dividir o risco, mas também parceiros no desenvolvimento do negócio.

Depois do Milan, comprado pelo fundo Elliot e da Inter, que se financiou com o fundo americano Oaktree, é a vez da Vecchia Signora abrir os braços para o dinheiro que vem dos cofres do Tio Sam.

CLUB BRUGGE: DO IPO AO INVESTIDOR

O atual campeão belga iniciou 2020 com um plano de abrir o capital do clube em bolsa. A ideia era receber aporte de recursos para desenvolver um processo de crescimento a ponto de se tornar mais relevante nas competições continentais.

Com mercado instável, o clube controlado pela Grizzly Sport decidiu suspender o IPO – Initial Public Offering – mas não o projeto de desenvolvimento. A solução foi receber um novo sócio, o que é muito comum nesses processos onde o IPO não sai. E então temos a chegada de mais um fundo americano, o Orkila Capital, que investiu € 50 milhões para ficar com 23,3% do Club Brugge (IPO pretendia levantar € 75 MM por 25% do clube). Desse montante, € 20 milhões serão aportados para contratações e € 30 milhões foram pagos diretamente aos acionistas anteriores.

O Orkila Capital tem um portfólio de investimentos no esporte, com presença no Ironman Group e no Bellator, além de empresas de mídia e produção de conteúdo. A expectativa do Brugge é que a entrada do fundo permita desenvolvimento esportivo, mas também ajude na construção de novas formas de receitas.

Anote aí: outro fundo americano entrando no futebol, e optando por um mercado menos nobre. Foram aportados o equivalente a R$ 330 milhões num clube que está entre os grandes da Bélgica, num momento em que está em andamento a consolidação entre as ligas belga e holandesa, e especialmente por ser um clube financeiramente equilibrado. Mesmo na pandemia gerou lucro de € 24 milhões em 2020.

ATLÉTICO DE MADRID: FUNDO AMERICANO COMPRA 33% DO CLUBE

Mais um movimento de fundo de investimentos americano, agora na Espanha. O fundo Ares Management comprou 33% da Atletico HoldCo, que por sua vez detém 66% do Atlético de Madrid, numa operação de € 181 milhões.

O objetivo primário do atual campeão da LaLiga é reduzir suas dívidas, que encerraram o período 19/20 em € 999 milhões, pressionadas pelos efeitos da pandemia.

FC BORDEAUX: NEM TUDO SÃO FLORES

Parece até que basta estalar os dedos e investidores americanos surgiram como Avengers para salvar os clubes europeus de futebol. Não é bem assim. O caso do clube francês Bordeaux mostra isso.

O clube era controlado por dois investidores americanos – King Street e Fortress – e entrou numa situação quase falimentar ao longo da atual temporada. Esses investidores já haviam aportado cerca de € 46 milhões ao longo de sua permanência como controladores, mas dado o agravamento da condição financeira do clube, simplesmente abandonaram a gestão.

Lembro sempre que este é um risco no caso dos clubes que são empresa. Nunca esqueça disso.

No final das contas, o clube foi vendido para o empresário Gerard Lopez, que já foi acionista do Lille, e é acionista do Boavista de Portugal. O processo de recuperação do clube era organizado pelo Rothschild & Co, que aceitou as condições em nome do clube.

O problema é que na avaliação dos números financeiros dentro do modelo de Fair Play Financeiro francês, o clube teve contas reprovadas, além de ser considerado “abandonado” pelo acionista, de forma que foi rebaixado para a Ligue 2. Na mesma reunião vários clubes tiveram análise de números e foram sancionados de forma leve ou mesmo dura, como foi o caso do Nantes, que terá uma temporada sem contratação de atletas. O modelo de Fair Play Financeiro funciona quando é aplicado de forma séria.

O clube recorreu da decisão e espera apresentar argumentos associados à troca de controlador para conseguir reverter a pena. Ou seja, os americanos erram e o clube foi salvo por gente que está no mundo do futebol. Num mercado organizado é possível solucionar os problemas, mas é impossível negar que existem.

QUAL O RESUMO DESSA CONVERSA?

Note que temos quatro movimentos de entrada de investidores no futebol europeu, e que se somam a tantos outros recentes, o que mostra o potencial do negócio futebol. Ninguém dessa turma entra para perder dinheiro, ainda que seus negócios tenham uma componente de risco bastante grande, e que se materializam como no caso do Bordeaux.