Brasileiros no mundo: Thiago Silva

No próximo sábado (29), o Chelsea entra em campo no Estádio do Dragão, em Portugal, em busca do título da Champions League diante do Manchester City. Se para os Blues esta é a chance do bicampeonato continental, para o brasileiro Thiago Silva trata-se de uma conquista inédita na carreira. Aos 36 anos, o zagueiro vive grande fase no Chelsea, após deixar o Paris Saint-Germain – onde atuou por oito anos.

Thiago Silva é um dos líderes do time de Londres e responsável direto pelo grande desempenho defensivo da equipe de Thomas Tuchel. Embora tenha se adaptado rapidamente à realidade dos Blues, sua carreira nem sempre foi guiada por um roteiro descomplicado. Na juventude, o brasileiro foi recusado na peneira de diversas equipes cariocas. Depois, viveu verdadeiro drama pessoal ao descobrir uma tuberculose.

No entanto, nem os percalços da vida, tampouco as críticas sofridas por torcedores da seleção brasileira abalaram sua trajetória. Vitorioso por onde passou, o defensor agora quer brilhar no jogo mais importante do futebol europeu. Por isso, às vésperas da final da Champions League, o MondoSportivo Brasil relembra um pouco da carreira de Thiago Silva.

Do meio para a zaga

Thiago Emiliano da Silva nasceu em 22 de setembro de 1984, no Rio de Janeiro. Incentivado pelo padrasto na adolescência e ajudado por motoristas de ônibus – que, às vezes, o levavam aos treinos sem cobrar passagem – ele teve um inicío de trajetória difícil. Como o Thiago mesmo conta, foram diversas reprovações em peneiras nos clubes da cidade. Após começar a jogar em uma escolhinha de futebol, que era núcleo do Fluminense, ele não conseguiu emplacar (ainda como volante) em Flamengo, Botafogo, Madureira e Olaria.

Apesar de quase desistir da carreira de jogador, Thiago Silva, enfim, conseguiu se destacar pelo Barcelona-RJ. Aí, já recuado no campo para a linha defensiva. Dessa forma, rumou ao sul do Brasil, onde atuou no RS Futebol e, depois, Juventude. No time de Caxias do Sul, teve a oportunidade de disputar o Campeonato Brasileiro de 2004. Aos 20 anos, foi considerado revelação da temporada e o 3º melhor zagueiro do Brasil pela Revista Placar.

O bom desempenho, então, levou o garoto a alçar vôos maiores. Foi contratado pelo Porto, de Portugal, no final de 2004. Entretanto, algumas lesões e a dificuldade de adaptação ao novo país fizeram com que Thiago Silva não defendesse as cores dos Dragões. Por conta disso, foi emprestado ao Dínamo de Moscou. E, aí, o zagueiro acabou vivenciando, certamente, o período mais difícil de sua carreira.

Tuberculose e renascimento no Flu

Thiago Silva conta que as dores no peito começaram ainda em Portugal. Contudo, sem tratamento, o problema piorou durante a estadia na (fria) Rússia. O zagueiro ficou internado em condições precárias por cinco meses. Distante de casa e sem saber ao certo a comorbidade que lhe atingia, o brasileiro viveu dias de terror. Foi sugerido a ele, inclusive, tirar uma parte do pulmão – o que acabaria com sua carreira.

Mas toda essa história teve um final feliz. O Dínamo de Moscou acabou contratando Ivo Worttmann, um ex-treinador de Thiago nos tempos de Juventude. Ivo, então, ajudou o brasileiro e conseguiu um especialista para tratá-lo da doença. Curado da tuberculose, o zagueiro seguiria novamente os passos do treinador no ano seguinte: 2006. Isso porque Ivo retornou ao Brasil para trabalhar no Fluminense. De prontidão, pediu a contratação de Thiago Silva.

Nas Laranjeiras, o zagueiro explodiu. Recebeu o apelido de “Monstro” da torcida e encantou o país com um estilo extremamente habilidoso para um zagueiro. Rápido, técnico e quase intransponível – apesar dos “só” 1,83 m de altura – Thiago Silva foi campeão da Copa do Brasil de 2007, além de ajudar o Flu a ser 4º colocado no Brasileirão. No ano seguinte, bateu na trave na final da Libertadores e foi vice-campeão.

No entanto, nada que apagasse sua grande trajetória no Tricolor Carioca. Todavia, para tristeza da torcida do Fluminense, havia chegado a hora de Thiago Silva retornar à Europa para, aí sim, escrever de vez seu nome na história do futebol mundial.

Milan e PSG

Em dezembro de 2008, o zagueiro foi negociado com o Milan. No entanto, não pode jogar na primeira metade do ano por conta do número de estrangeiros no time. A espera valeu a pena. Thiago “chegou chegando” na equipe rossonera, onde, inclusive, desbancou o ídolo Alessandro Nesta logo na primeira temporada como zagueiro preferido da torcida.

Nessa época, o brasileiro já havia se firmado com um dos melhores defensores do mundo. Preciso nos cortes, taticamente impecável e pouquíssimo violento: apenas SETE cartões amarelos em 119 jogos com o Milan. Seu grande desempenho chamou a atenção do PSG. Embora Silvio Berlusconi tenha recusado a primeira investida, foi incapaz de negar os 44 milhões de euros do “novo rico” europeu.

Na temporada 2012-13, Thiago Silva se transferiu para o Paris Saint-Germain. Por lá ficou oito anos. Conquistou um caminhão de troféus: sete títulos da Ligue 1, cinco Copas da França, seis Taças da Liga e sete Supercopas. No currículo, 315 jogos, 17 gols e a braçadeira de capitão desde 2014. No entanto, faltou, justamente, o título da tão cobiçada Champions League.

Na temporada passada, o zagueiro bateu na trave. Pela primeira vez na carreira conseguiu chegar à decisão do torneio. Só que o PSG acabou esbarrando no forte time do Bayern de Munique. Placar de 1 a 0, em Lisboa, e frustração do lado francês. Essa foi a despedida de Thiago Silva do PSG. No entanto, este ano, o brasileiro retorna a Portugal novamente para a decisão. A diferença, porém, está no escudo da camisa vestida por ele.

Rápida adaptação no Chelsea

O que será de Thiago Silva no Chelsea aos 36 anos? Provavelmente, muitos fizeram essa pergunta no início da temporada. Isso porque a desconfiança física – e de adaptação – quanto ao zagueiro, após tantos anos na França, existiam. Contudo, a resposta do brasileiro se deu no campo. E os números estão aí para nos auxiliar a entender sua evolução na Inglaterra.

Jogando na linha de três defensores de Thomas Tuchel, Thiago ajudou a colocar a zaga do Chelsea nos eixos. Claro que não faltou experiência ao brasileiro, muito sereno em suas atuações. Ele joga ao lado de Rudiger, Christensen ou Zouma e funciona como um verdadeiro líder da defesa – atributo sempre questionado, principalmente pelos fãs da seleção brasileira. Mas, fato é que Thiago Silva é uma das referências desse Chelsea que foi potencializado no meio da temporada.

Ao olharmos os números, então, vemos um excelente desempenho do zagueiro brasileiro nos duelos aéreos e terrestres. Além disso, sua participação nas ações da equipe é muito grande – principalmente na Premier League, onde os Blues tem mais costume de dominar a posse de bola nas partidas. Para se ter ideia, o camisa 6 tem médias de 94,3 toques por jogo em suas 33 aparições pela liga nacional.

Os três zagueiros

Dessa forma, centralizado na linha de três, bem protegido e com liberdade para dar inicio às ações, Thiago Silva encontrou seu espaço no Chesea. O começo da trajetória, em particular, foi bastante impressionante. Além da grande quantidade de toques na bola, o zagueiro também investiu nos passes longos. Em termos de intensidade, rapidamente se adequou ao futebol inglês. Como de costume, manteve-se distante dos cartões – apenas três amarelos e uma expulsão.

Ao todo, atuou em 33 partidas com a camisa azul e conseguiu sair de campo sem ceder gols em 16 delas. Ou seja, praticamente a metade. Importante nas interceptações, o zagueiro se adequou a jogar com o apoio de mais dois defensores na defesa – algo que não acontecia no PSG. Sendo assim, mesmo com a mudança no esquema, manteve-se preciso nas coberturas e na bola aérea (um dos pontos mais fortes de seu jogo).

Mas, toda essa parte tática, claro, está somada a um comprometimento físico exemplar para um atleta de 36 anos. Apesar de uma lesão na coxa entre fevereiro e março, ele se recuperou bem e não apresenta sinais de desgaste neste momento da temporada. Diante dessa receita, é possível compreender a ótima temporada de Thiago em Londres. Só falta para ele, agora, a coroação deste novo “renascimento” com o título da Champions League no próximo sábado.

Problemas de liderança?

Certamente, todos se lembram de uma cena famosa envolvendo Thiago Silva durante a Copa do Mundo de 2014, disputada no Brasil. Nas oitavas de final, frente ao Chile, o zagueiro chorou antes da disputa por penalidades que definiria o classificado às quartas. Para alguns, aquilo fiou marcado como sinal de desequilíbrio emocional do capitão brasileiro. No entanto, não é incorreto afirmar que, atualmente, o brasileiro exerce, sim, uma liderança positiva no Chelsea.

Pelo caminho, houve outras situações difíceis para o zagueiro. Por exemplo, na Copa América de 2015, quando acabou cometendo um pênalti bobo que deu ao Paraguai o empate – e posteriormente a classificação ao rival nos pênaltis. Já no PSG, acabou bastante criticado pela postura um pouco apática na histórica remontada do Barcelona, que venceu por 6 a 1, no Camp Nou, em duelo da Champions.

Abalo psicológico? Traumas pelas dificuldades do passado? É injusto apontar um ou outro motivo, assim como também não é prudente se espelhar em apenas situações pontuais – decisivas, é verdade, mas esporádicas. Thiago Silva foi capitão por onde passou e sempre será referência técnica para o seu time. Se deve ou não utilizar a braçadeira, aí fica a cargo de seus treinadores. Fato é que, no Chelsea, o brasileiro, natural do Rio de Janeiro, conseguiu demonstrar sua presença de forma rápida e marcante.

E aí, será que o Thiago Silva leva a orelhuda no próximo sábado?

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