Avaliação da temporada da Eredivisie: os outros que lutem

O mundo mudou em muitas coisas (e mudará em outras tantas) com a pandemia de COVID-19. Claro que o futebol está presente nessas tantas mudanças. Ainda assim, mesmo antes do começo do Campeonato Holandês recém-encerrado, já se sabia: novamente, seriam todos contra o Ajax, que partia como favorito destacado à conquista da Eredivisie, de novo.

Pois bem: houve dificuldades aqui e ali, mas a partir do começo de 2021, o time de Amsterdã partiu célere e eficiente rumo ao destino esperado: o 35º título holandês de sua história. Só mais um tijolo, na casa sólida que os Ajacieden têm construído há alguns anos na busca de serem “o Bayern de Munique da Holanda“, como o diretor de futebol Marc Overmars desejou, numa entrevista em 2018 – ainda que o próprio Overmars reconheça hoje que “isso é difícil”.

No turno, o Ajax ainda teve certas dificuldades. Teve sérias dificuldades para triunfar contra o Vitesse na 3ª rodada (2 a 1), já perdeu na quarta rodada (1 a 0 para o Groningen, fora de casa), terminou 2020 com um empate insípido contra o Willem II (1 a 1). Ainda oferecia alguma perspectiva a quem sonhasse com o título.

O PSV tinha altos e baixos sob Roger Schmidt, chegou a sofrer com um surto de infecções pelo novo coronavírus, mas mantinha a vice-liderança e alguns destaques – Philipp Max, Eran Zahavi, Donyell Malen. O Vitesse impressionava pela solidez, pelo muito que fazia dentro das suas capacidades e por alguns achados táticos do técnico Thomas Letsch (jogar como líbero reabilitou a carreira de Riechedly Bazoer, por exemplo).

O Feyenoord podia até deixar sua torcida desconfiada, mas bem ou mal, só tivera uma derrota na Eredivisie em todo 2020, antes e depois da eclosão da pandemia. E o AZ se recuperava de um mau começo para ensaiar a retomada do posto que ocupava em 2019/20, quando o Holandês foi interrompido pela COVID-19: o principal desafiante do Ajax.

Os clássicos com que a liga seria retomada, em 2021, diriam se o Ajax ainda era o mais forte ou se a disputa pelo título seria equilibrada, como fora a Eredivisie 2019/20 enquanto durou. De certa forma, o jogo-chave para o destino do campeonato foi o Ajax 2×2 PSV da 15ª rodada, a primeira deste ano. O PSV começou pressionando, assustando, fazendo 2 a 0; mas o Ajax se manteve imperturbável, diminuiu ainda no primeiro tempo e conseguiu, afinal, o empate.

Era um sinal: os Amsterdammers tinham um time firme o suficiente para superar obstáculos. Dentro de campo, os adversários. O arquirrival Feyenoord tinha perspectivas de disputar o título? Foi despachado (1 a 0, na 17ª rodada). O AZ sonhava? Coube ao time da Johan Cruyff Arena cortar o barato da equipe de Alkmaar (3 a 0 na 20ª rodada).

Até mesmo na dificuldade contra o PSV, pela 24ª rodada, o onze Ajacied foi buscar um ponto: perdia por 1 a 0 até um pênalti, nos minutos finais, render o empate salvador. Mesmo em competições europeias: se o time não brilhava como no histórico 2018/19 que teve a semifinal na Liga dos Campeões, começava a avançar na Liga Europa – e gostava disso (a eliminação para a Roma deixou o amargo gosto de decepção).

Fora de campo, o Ajax também se virava. Uma falha administrativa incrível fizera o reforço Sébastien Haller ficar ausente da Liga Europa? Pelo menos, ele correspondeu na Eredivisie. André Onana, titularíssimo no gol, foi suspenso? O veterano Maarten Stekelenburg não só cumpriu o papel para o qual foi contratado, sendo um reserva experiente pronto para assumir a responsabilidade: reabilitou a carreira a ponto de ser convocado para a Euro.

Klaas-Jan Huntelaar preferira ir tentar ajudar o Schalke 04 a se salvar? Pois nomes como Brian Brobbey, além do mencionado Haller, mantinham o Ajax em alta. Tudo isso, sem contar os destaques de sempre: Dusan Tadic, Antony, a entrosada dupla Davy Klaassen-Ryan Gravenberch, as revelações Devyne Rensch e Jurriën Timber (chamado para a Euro sem nenhuma convocação anterior para a seleção adulta da Holanda!)… assim, o Ajax não perdia pela liga nacional em 2021. Abria vantagem cada vez mais inalcançável. E de quebra, ainda levava a Copa da Holanda, repetindo a dupla coroa de 2018/19.

Certo, houve outras boas histórias no Campeonato Holandês. Mais abaixo, o Utrecht reagiu no returno, após uma decepcionante primeira metade, para novamente disputar uma vaga em competição europeia – no caso, a Conference League.

Aí, quem reagiu foi o Feyenoord: precisando jogar os play-offs após péssima reta final, o clube de Roterdã conseguiu jogar com segurança para abocanhar a vaga e dar um ar mais honroso ao provável fim de carreira de Dick Advocaat como técnico.

Na disputa contra o rebaixamento, o Emmen quase encantou: sem vitórias até a 23ª rodada, conseguiu arrancar desde então para ganhar a segunda chance de salvação na repescagem – mas a perdeu para o NAC Breda, e foi rebaixado mesmo.

Mas são todas histórias coadjuvantes, diante do principal ponto que a Eredivisie 2020/21 ofereceu em suas 34 rodadas. O Ajax mostrou o que já se sabia: exerce um domínio como a Holanda (Países Baixos) não via fazia tempo em seu futebol. Um domínio inquestionável. Os outros que lutem para alcançá-lo.

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